A TEMPESTADE EM SEMENTE DE BRUXA

   Publicado em 19 de julho de 2019

Em uma entrevista, Margaret Atwood comentou que A Tempestade é a obra em que Shakespeare chega mais próximo de escrever sobre a escrita. Esse caráter metalinguístico da peça é um dos elementos da criação de Shakespeare que parece ter sido transposto pela autora para seu reconto da peça, o romance Semente de Bruxa, história que também pode ser lida como uma obra que fala sobre a escrita: a escrita de um original, a escrita de uma recontagem, e mesmo a escrita em sentido mais amplo, na reviravolta de uma trajetória pessoal, no resgate de cenas da memória e de sentimentos do passado e mesmo a escrita de um sentido para a existência.

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Na peça de Shakespeare, Próspero, mago e duque de Milão, é deposto por Antônio, irmão em quem ele confiava plenamente, e colocado em um barco com a filha Miranda para naufragar. Próspero e Miranda, entretanto, chegam a uma ilha quase deserta, habitada apenas por um ser disforme, filho da bruxa Sycorax, Calibã (semente de bruxa que dá título à obra) e por espíritos do ar como Ariel, aprisionado a uma árvore por um feitiço da bruxa. No reconto de Atwood, Felix (um dos possíveis sinônimos para a palavra latina prospero) é deposto de seu cargo de diretor teatral no momento em que está trabalhando em uma montagem de A tempestade, na qual pretende também atuar no papel de Próspero. O responsável por sua demissão do cargo é Anthony (Tony), seu parceiro profissional de muito tempo. Felix havia perdido há pouco sua única filha, ainda criança – também chamada Miranda – e vivia constantemente em memórias, idealizações e projeções sobre a filha morta.

No processo de tradução da obra de Atwood, um dos pontos que se destacou foi o modo como ela cria constantemente novas camadas que dialogam com o original. A autora não apenas se inspira na obra de Shakespeare e a reconta (algumas vezes, inclusive, fazendo alusões a outras peças do Bardo), mas insere a peça em diversas camadas de sua narrativa, criando como que uma rede em que a trama é constituída de vários aspectos de A tempestade.

O primeiro desses aspectos, e provavelmente o mais evidente, está nos nomes dos personagens. De Felix e Tony aos detentos da instituição prisional em que acontece a montagem da peça, há sempre uma aproximação. Ariel, o espírito do ar que ajuda Próspero em suas magias, por exemplo, é 8Handz, hacker capaz de invadir espaços virtuais, sensações ilusórias, efeitos especiais.
Uma segunda camada em que A tempestade também se faz presente é a estrutura do texto: os títulos dos capítulos, que de certa forma resumem a jornada de Felix, são retirados, em sua maioria, de cenas da peça de Shakespeare.

Além disso, a A Tempestade também pontua a narrativa como se fosse uma baliza para a trajetória e os pensamentos de Felix: é a peça que ele dirige e interpreta quando é demitido; é a jornada cujos passos ele revive em seu sentimento de traição e no desejo de vingança; é a trama em que ele busca soluções para seus dilemas, inspiração para suas ideias.

Uma quarta camada em que a peça shakespeariana aparece é na sua interpretação pelos detentos do complexo prisional: como a linguagem, as ideias, a narrativa de Shakespeare falam a leitores dos anos 2010 que não têm profunda intimidade com o autor clássico? Os detentos interpretam os personagens e se reconhecem neles, reinterpretam a linguagem shakespeariana e se apropriam dela em sua vida cotidiana, tornando A tempestade uma obra viva em sua própria experiência de vida.

Além disso, o lado mais emotivo, mais doloroso da peça é o texto que ecoa indefinidamente nas falas, comportamentos e ações imaginárias de Miranda, a filha de Felix. Assim, Miranda, a filha de Próspero, se torna uma espécie de espelho no qual Felix, em sua saudade incessante de sua filha Miranda e em seus sentimentos de culpa e perda, projeta o ideal da filha perdida.

Em toda sua narrativa, Atwood coloca frases inteiras de personagens da peça nas falas e pensamentos de seus próprios personagens. A identificação que se dá entre personagens de uma história e de outra e o modo como algumas contraposições trabalhadas na peça (liberdade/prisão, vingança/perdão, medo/coragem, entre outras) se repetem nas experiências dos personagens do romance é, em si, uma representação da própria circularidade de temas e preocupações das criações literárias e do processo de identificação entre leitores e personagens no ato da leitura. E, então, podemos ler Semente de bruxa como um texto em que Atwood nos fala sobre a escrita, assim como ela lê a peça de Shakespeare.

E há, ainda, a tempestade criada por Ariel para a vingança de Próspero que, na recriação de Felix se transforma em uma “peça interativa” que leva seus traidores à experiência de um naufrágio moral e emocional. É aqui que Margaret Atwood aproxima as ideias de magia e arte, demonstrando como ambas são capazes de transmutar sentimentos. Uma transmutação que está no cerne da peça de Shakespeare.

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