CONSCIÊNCIA NEGRA E LITERATURA

   Publicado em 19 de julho de 2019

Em reconhecimento ao mês da consciência negra, convidamos nossa parceira Jennifer Leoncio do Leituras da Jen para escrever um pouco sobre sua relação com a literatura neste mês tão significativo.

Desde o instante em que obtive a consciência que eu de fato existia, compreendi o significado da palavra racismo; sempre tive a percepção de ser moral e socialmente julgada pela melanina presente em minha pele.

Confesso que, em grande parte dessa existência, eu não permitia que o fato de ser negra fosse algo que me caracterizasse unicamente. Não admitia em nenhuma circunstância, apesar de sempre ter sofrido racismo – inclusive o pior de todos, ao meu ver, o autorracismo. Entretanto acredito que a literatura permite que enxerguemos além do já vivenciado: ela possui o poder de nos mudar.

O livro, dentre os que citarei, Kindred da incrível autora Octavia E. Butler se tornou o segundo favorita da minha vida; questões como crítica social e racismo estão presentes na obra de uma forma que temos que submergir de corpo inteiro para alcançá-las completamente. Dana, a protagonista, retorna à era escravagista dos Estados Unidos e precisa lidar com não apenas a escravidão em si, mas também diversas outras discriminações. A cada descrição do chicote lhe percorrendo as costas e acertando seus seios, a dor era sentida dentro do meu ser. Ler sobre uma época a qual negros não eram vistos como seres humanos, mas objetos a serem açoitados por meramente existir.

De fato, a obra supracitada mudou completamente a percepção eu tinha acerca da vida; me permitiu analisar que por mais que o tempo avance, ainda há exarcebada descriminação e racismo na nossa sociedade. Apesar de séculos terem se passado, apesar dos avanços tecnológicos, há indivíduos que se julgam superiores a outros por causa de sua pele.

Bem-vindos ao paraíso, de Nicole Dennis-Benn, foi outra obra que me acrescentou camadas à minha percepção da vida. Este livro não aborda só o racismo, mas também as questões de turismo sexual e homofobia. Uma história que me deixou atordoada, como se eu levasse socos no estômago a cada frase.

Nessa leitura pude compreender que grande parte da minha vida sofri do que chamo autorracismo. É um racismo que impus a mim mesma, em razão da discriminação que paira na nossa sociedade. Quantas vezes eu deixei de tomar café para não escurecer, pois me disseram que era por causa da bebida que eu era negra? Quantas vezes evitei o sol para ficar mais clara? Entretanto, em nenhum momento me ensinaram a amar quem eu realmente sou. Hoje, eu sei que sou a Jennifer, uma mulher negra com orgulho de dizer isso.

Sofremos muito e sinto-me muito triste em dizer que sofreremos mais, mas isso não nos impede de reunir forças e dizer com toda a voz que há em nossos pulmões que somos iguais. Não importa se alguém possui mais melanina que outros, o importante, acima de tudo, é respeitar as diferenças. E confesso ainda que após a leitura dos dois livros citados, após uma mudança interna que tive, jamais esquecerei que temos que lutar. Lutar pela igualdade e pela justiça.

Creio que há muitas outras Jennifer’s por aí, que assim como eu, acreditam que só serão alguém na vida se foram brancas. E por isso repetirei: a literatura sempre possuirá o poder de nos fazer enxergar além do que já foi vivido; ela possui o poder de nos mudar. Enquanto houver discriminação, haverão obra como tais para nos ajudar a criar força e lutar.

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