Entrevista com Lily Brooks-Dalton, autora de O Céu da Meia-Noite

   Publicado em 13 de maio de 2021

Recebemos a fantástica Lily Brooks-Dalton, autora de O Céu da Meia-Noite, para uma entrevista exclusiva para a Editora Morro Branco. Qual a conexão do seu livro com um dos títulos de Jean Rhys? Por que a escolha de uma das luas de Júpiter para a expedição espacial na narrativa? Essas e outras perguntas são respondidas pela autora!

Editora Morro Branco: Você pode nos contar um pouco sobre a história de O Céu da Meia-Noite?

Lily Brooks-Dalton: O livro se passa logo após um misterioso evento apocalíptico e acompanha dois grupos de personagens que estão presos em ambientes extremos e, portanto, não sabem o que aconteceu — eles apenas sabem que não podem se comunicar com ninguém. No Ártico, Augustine e Iris estão isolados em um observatório de astronomia, enquanto no espaço, uma equipe de astronautas está tentando voltar para casa.

MB: O Céu da Meia-Noite compartilha seu título com um dos romances de Jean Rhys e seu livro começa com uma citação desta autora. Você pode
compartilhar conosco o significado por trás dessa conexão?

LBD: Então, a frase Bom dia Meia-Noite (tradução literal do título da edição americana) na verdade se originou em um poema de Emily Dickinson de 1800. É um belo poema, e essa é a epígrafe do livro de Jean Rhys. Quando decidi dar esse título, pareceu-me adequado usar uma epígrafe de Rhys para conectar todos esses trabalhos juntos em um loop – e agora, é claro, esse loop inclui um filme, O Céu da Meia-Noite. Acredito que é assim que a arte e a inspiração evoluem. A história de uma pessoa gera outra e assim por diante. Todos nós estamos contribuindo para uma linhagem criativa. Eu
amo o poema e amo o romance de Rhys, e embora todos esses três textos sejam tão diferentes um do outro, acho que todos eles estão às voltas com a escuridão, de maneiras diferentes — olhando para um tipo de perda que é desconfortável de contemplar.

MB: Por que você escolheu uma das luas de Júpiter para a expedição espacial?

LBD: Acho que as luas de Júpiter são uma parte realmente fascinante do nosso sistema solar sobre a qual não sabemos muito. Sabemos que o planeta Júpiter em si é um gigante gasoso, mas ele é cercado de dezenas e dezenas de luas, muitas das quais ainda não foram nomeadas. Há muito para aprendermos por lá.

MB: Ao ler o livro, o leitor pode se sentir sendo transportado por sua escrita para os locais descritos em O Céu da Meia-Noite. Quanta pesquisa você teve que fazer para escrever descrições tão realistas?

LBD: Obrigada! Eu realmente pesquisei bastante, mas é claro que eu devo ter me enganado em diversos aspectos. Tenho uma estante inteira de livros de memórias de astronautas em minha coleção de livros e vários outros sobre o Ártico também. Outra área que pesquisei muito foi a do Rádio – tirei minha licença de Técnica Amadora e me interessei muito por esse tipo de transmissão. A maioria das pessoas conhece ou já usou CB (Serviço Rádio do
Cidadão), mas existem tantas outras frequências e nuances para cada objetivo da transmissão. No final das contas, nos comunicamos com a Estação Espacial Internacional via rádio. Pensamos em Rádio como uma espécie de tecnologia arcaica já que hoje temos a internet, mas é fundamental na forma como nos comunicamos, especialmente quando ocorrem desastres.

MB: Por que você escolheu a Ficção Científica como meio para contar as
histórias de Augustine, Iris e Sully?

LBD: Eu queria escrever uma história que passasse uma sensação realista, mas que fosse um pouco fora da caixa da realidade. Há muita ciência por trás do livro — é o que eu classificaria como ficção científica pesada, na medida em que a ciência ali presente é bastante fundamentada na realidade.

MB: O livro se passa em dois lugares opostos, o espaço e o Ártico, lugares que evocam uma sensação de isolamento, assim como os personagens se sentem. Este foi um dos temas centrais do livro desde o início ou desenvolveu-se dessa maneira durante o seu processo de escrita?

LBD: Sim, isso fez parte da minha ideia inicial. Eu queria imaginar o verdadeiro isolamento, realmente considerar seriamente como uma pessoa pode processar emocionalmente a ideia de ser um dos últimos de sua espécie. E, dessa forma, fazer os cenários refletirem essa solidão foi importante para o clima da história.

MB: Qual foi sua inspiração para contar as histórias de Augustine e Sully e até que ponto isso influencia na constituição um do outro como pai e mãe?

LBD: Nenhum desses personagens é o que você chamaria de “bons pais”, mas também não gosto de chamá-los de pais ruins. É mais complexo do que isso. Eles se preocupam profundamente com seus trabalhos, tão profundamente que não estão presentes para as pessoas amadas de suas vidas. Então, depois de vidas inteiras se isolando, eles são isolados por uma força muito maior, que eles não podem controlar e os obriga a reavaliar as escolhas que fizeram. Eles recebem essa chance de agir diferente.

MB: Você gostou da adaptação produzida pela Netflix e dirigida e estrelada por George Clooney?

LBD: Foi uma experiência muito especial ver o filme ser gravado. É extraordinário imaginar pessoas e lugares que, então, se manifestam dessa forma. Estando no set, eu senti como se estivesse andando em meu próprio cérebro. Foi uma loucura.

MB: Você pode nos dizer o que está escrevendo no momento?

LBD: Bem, acabei de terminar um novo livro há alguns meses, então em breve farei mais algumas edições no seu manuscrito. Chama-se The Light Pirate por enquanto (o título pode mudar, não tenho certeza ainda) e seu lançamento está programado para o início de 2023, o que parece tão distante! É ambientado em um futuro próximo, que percorre a vida de uma mulher que mora no sul da Flórida. Vemos como a paisagem está mudando ao seu redor, e como ela está mudando também. Evoluindo. Existe essa linha de realismo mágico que beira a ciência — porque, realmente, qual é a diferença entre os dois, senão uma explicação com a qual alguém se sente confortável? E eu comecei um livro novo enquanto espero pelo feedback do meu editor, mas esse está muito no início para falar sobre, de verdade. Estou animada para ver onde esse vai dar!

Obrigado por todas as suas atenciosas perguntas!

Lily Brooks-Dalton é uma escritora americana que nasceu e cresceu no sul de Vermont. Além do premiado livro de memórias Motorcycles I’ve Loved, teve trabalhos expostos em relevantes publicações como Harper’s, The New York Times, Motorcyclist Magazine, dentre outras. O Céu Da Meia-Noite, seu 1º livro de ficção, se tornou um best-seller traduzido para mais de 16 idiomas e foi adaptado pela Netflix para um filme dirigido e estrelado por George Clooney que foi indicado ao Oscar 2021 na categoria de Efeitos Especiais.

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