Maresi e a Deusa Tríplice

   Publicado em 23 de abril de 2021

Há milênios atrás, durante as primeiras sociedades humanas, a mulher era enaltecida por seu dom de gerar a luz, e por sobreviver seus ciclos menstruais. Isso porque, a mulher era o único animal que permanecia vivo mesmo após sangrar. Na época, ainda não se existia ciência, muito menos medicina, então, o ciclo menstrual era considerado um milagre sagrado.

Muito se percebeu que esse ciclo estava associado aos ciclos lunares, e também, as plantações. A partir daí, houve o nascimento do que hoje entendemos como “Mãe Terra”. O lado feminino da Terra e da natureza era cultivado por trazer fartura, nascimento, e a geração da vida. A “Grande Deusa Mãe” surge no mesmo momento histórico, pois ela é a personificação feminina da Terra, e está presente em todas as mulheres. As mulheres sempre tiveram mais domínio da natureza e de seus corpos, pois ambos conversavam entre si. Por isso elas dominaram a sabedoria das ervas, dos ciclos das estações, da cura e da geração de vida.

A natureza e seus ciclos eram o que regiam a ordem nessas sociedades. Portanto, a espera e o respeito de cada ciclo eram muito importantes: o nascimento, o amadurecimento, e por fim, a morte. A necessidade de honrar as fases da vida e os ciclos da terra foi o que inspirou o conceito de “Deusa Tríplice”. A Deusa Tríplice, nada mais é do que os diferentes ciclos da natureza: A Virgem, a Mãe e a Anciã. Esses três arquétipos são apresentados na trilogia de Turtschaninoff em diferentes contextos, mas com uma grande propriedade.

A Virgem é doce, alegre, inocente e curiosa. A Mãe é acolhedora, poderosa, sensual e mística. A Velha é sábia, paciente, e detentora do conhecimento. Essas três facetas da Grande Deusa são consideradas presente em todas as mulheres, assim como no ciclo da natureza.

Entretanto, o poder feminino não tinha soberania, e por isso, todos eram vistos iguais dentro das religiões que cultivavam Deusas. É por conta disso que, alguns séculos mais tarde, através do Império Greco-Romano, Deuses masculinos passaram a tomar o poder.

A soberania patriarcal começou a caminhar bem lentamente para que fosse instaurada mais alguns séculos a frente. Até lá, Deuses e Deusas começaram a dominar o imaginário coletivo.

Com isso, não existia mais uma Grande Deusa ou uma Deusa Tríplice, mas sim, diversos Deuses que representavam aspectos da natureza ou da sociedade da época. Como por exemplo: Deusa Afrodite (Deusa do amor), Zeus (Deus dos trovões), e por aí vai.

Quando isso aconteceu, surgiram arquétipos femininos que separavam as mulheres e as reduziam em apenas um rótulo. Se uma mulher era muito romântica, iria rezar para Afrodite, se era voltada para a sabedoria, rezaria para Atenas, a Deusa da sabedoria. Com isso, o arquétipo da Velha foi esquecido. Mesmo nos dias de hoje, muitas pessoas não conhecem figuras como a Baba Yaga, uma figura do folclore eslavo que representa uma velha bruxa que mora numa casa apoiada sobre pés de galinha, e pode ser tanto bondosa como terrivelmente má. Isso porque a juventude e inocência feminina começou a ser estrategicamente exaltada desde essa época.

Em As Crônicas da Abadia Vermelha, podemos muito ver o reflexo disso através das Irmãs e da própria personagem principal. Primeiro existe o medo de Maresi pela Velha. Essa entidade causa estranheza e receio.
Além disso, na Abadia, cada mulher possui um diferente papel que reflete as necessidades da natureza. Exemplos disso são a Irmã Ers, atrelada a Casa da Fornalha, que é onde se prepara alimento suficiente para alimentar todas as mulheres e meninas da ilha e ainda para as oferendas a Deusa, sem desperdício e seguindo as estações da natureza. Ou então, a Irmã Rosa, que se resguarda no seu Templo, é responsável por representar a beleza que resiste no mundo, mesmo em meio a tanta violência e sofrimento. Ela mostra a força do feminino e da sexualidade, tendo um enorme papel ao proteger as meninas da abadia no primeiro livro quando incorpora a própria Deusa. Todas essas Sacerdotisas estão ali para guiar as meninas através dos ensinamentos da Deusa, e as preparam levar o conhecimento disseminado na Abadia Vermelha para o resto do mundo.

Podemos ver que esses arquétipos existem, mas ainda temos a presença da Deusa Tríplice. Isso porque, no universo de Maresi, o patriarcado já tomou um grande espaço dentro da sociedade. O homem é retratado único ser capaz de violência. O misticismo e a magia são rebaixados em diversos momentos, já que os corpos dessas mulheres precisam cumprir ordens dentro da sociedade patriarcal.

Citando a famosa socióloga, Silvia Fredericci, “Na Europa, as caças às bruxas foram os meios pelos quais as mulheres se educaram em relação as suas novas obrigações sociais.”

A magia atrapalha uma racionalidade moderna exigida pelo capitalismo e por classes trabalhadoras. A mulher que antes era vista como admiração, torna-se a maior vítima de opressão. O poder que elas tinham sobre seus corpos foi tomado, e o conhecimento da natureza que carregavam questionado.

Esses pontos são delicadamente levantados ao longo da trilogia de Maria. E nos faz repensar sobre toda a narrativa de opressão e a necessidade do feminismo e do pensar sobre ser mulher.

Afinal, aos olhos da sociedade, toda a mulher que se rebela, vai contra as ordens e questiona, é uma bruxa. Que sejamos então todas bruxas.

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