O EQUILÍBRIO DA NATUREZA E O PAPEL DO HOMEM EM TUDO O QUE DEIXAMOS PARA TRÁS

   Publicado em 25 de junho de 2019

No dia 22 de março é comemorado o Dia Mundial da Terra, um dia marcado por debates sobre o equilíbrio do planeta. Já há algumas décadas, os cientistas vêm se preocupado com o destino do planeta. Nos anos 1990, foi a vez do efeito estufa, quando, pela primeira vez, discutíamos em âmbito mundial os efeitos da interferência do homem na camada de ozônio. Alguns anos mais tarde, o foco se voltou para a busca de outro tipo de combustível que não fosse a gasolina, já que o emprego de combustíveis fósseis prejudicava o equilíbrio planetário, além de ser um recurso natural finito. Nos preocupamos, depois, com a crise das águas e em saber se haverá água potável em algumas décadas. Mais recentemente, voltamos o nosso olhar para as mudanças climáticas, culpando um possível aquecimento global que teria alterado a temperatura dos mares e, com isso, acelerado o processo de degelo, alteração do clima global, entre outros efeitos. Todas preocupações pertinentes e que demonstram o quanto estamos lutando para entender nosso papel no mundo.

Mas o que uma pequena abelha tem a ver com essa discussão? Gravem essas palavras: síndrome do colapso das colônias. A editora Morro Branco publicou há alguns anos um livro chamado Tudo o que Deixamos para Trás, de uma autora norueguesa chamada Maja Lunde. Em sua narrativa, ela apresenta três personagens: William, um biólogo tentando estudar novos tipos de colmeia em 1852; George, um apicultor do século XXI tentando lidar com problemas para manter o seu negócio de abelhas; e Tao, uma mulher em uma China futurista que trabalha diariamente em um campo de polinização natural. O elemento comum que liga a história destas três pessoas são esses pequenos insetos responsáveis pela maior parte de nossa produção de alimentos nos dias de hoje. Para quem não sabe, as abelhas são responsáveis por 80% da polinização de todas as plantas que possuem flores do planeta. Um processo que serve não apenas para produzir vegetais como maçãs, tomates, limões e demais alimentos, mas também é o responsável pela reprodução da mata ciliar e sua expansão. Claro que as abelhas não são os únicos animais polinizadores, porém são os mais eficientes.

Já há alguns anos que os cientistas vêm alertando para o efeito agressivo dos agrotóxicos na natureza, seja no surgimento de plantas defeituosas, como na presença de substâncias cancerígenas em alimentos. Mas, além disso, os agrotóxicos têm prejudicado as abelhas polinizadoras. As substâncias presentes na maior parte desses compostos são venenosas para esses insetos e, quando eles não morrem, pouco tempo depois, levam o veneno para suas colmeias, matando toda a colônia em consequência disso. Outro efeito secundário é o surgimento de novas gerações de abelhas mais frágeis ou doentes, incapazes de realizar o processo de polinização.

Na narrativa de Maja Lunde, George sofre com sérios problemas em seu negócio. Subitamente as abelhas de suas colônias começam a morrer inexplicavelmente. Ou simplesmente desaparecer. Ele passa muitos meses tentando buscar uma explicação para aquele fenômeno. Seu raciocínio passa por diversas causas: falta de alimentos para as abelhas, problemas com a abelha-rainha ou até alguma doença contagiosa para insetos. O que parecia ser só um problema com ele se espalha para outros companheiros da região, que sofrem com o mesmo problema. George vai vendo suas abelhas desaparecerem progressivamente e isso vai deixando-o desesperado. A constatação de que o problema é proveniente dos fazendeiros da região vem tarde demais. As abelhas que estavam morrendo tinham sido envenenadas rapidamente e espalharam-se pelas colônias; as que desapareceram tiveram sua coordenação afetada pelos agrotóxicos. Em pouco menos de um ano na narrativa, toda uma região foi afetada, destruindo as colônias de abelhas. Restaram apenas as selvagens, que não fazem o processo de polinização.

Mas, por que as abelhas são tão importantes? Bem, precisamos lembrar que a pecuária precisa de grãos para alimentar bois, porcos e galinhas. Estes grãos também são polinizados por abelhas. Caso não haja grãos, os animais vão se enfraquecer e morrer. Percebem como o desaparecimento das abelhas acaba afetando toda a indústria alimentícia em um efeito cascata? Mas a produção de algodão e até de biocombustíveis também pode ser afetada. As abelhas funcionam como mantenedoras do equilíbrio nos mais diversos ecossistemas terrestres. Sem elas veríamos um colapso completo.

Podemos imaginar um pouco como seria isso. Basta vermos a narrativa de Tao, no livro de Maja Lunde. Um lugar onde as pessoas precisam fazer as tarefas de uma abelha. Com geringonças complicadas, elas tentam polinizar artificialmente as plantas. Obviamente que isso não é um método eficiente e a carestia de alimentos afeta a todos. A distopia vivida pela personagem é um retrato de um possível futuro para a humanidade. Futuro esse que está mais próximo do que imaginamos.

Só na última década, quase um terço das espécies de abelhas polinizadoras das Américas foram afetadas pela síndrome do colapso. Os apicultores já começam a trabalhar com a mentalidade de que há a necessidade de buscar novas formas de criar colmeias. Já vi reportagens da Science até com colmeias artificiais, buscando reproduzir o sabor e a textura do mel. Mas e a polinização? Essa já é uma questão que envolve inúmeras variáveis.

É possível, ainda, ajudar a restaurar esse equilíbrio, e o poder está nas mãos de cada um de nós. George, na narrativa de Maja, percebe que precisa mudar a maneira como lida com as abelhas. Ele realoca suas colônias e transforma o seu cultivo em algo sustentável. Antes de mais nada, é preciso deixar de lado o emprego dos agrotóxicos. É totalmente comprovado que eles afetam não só a fauna e a flora como os próprios seres humanos que consomem alimentos que tiveram contato com eles. Outras pequenas medidas podem surtir efeito:

  • Plantar flores diferentes em vasos e jardins, fornecendo às abelhas diversidade de alimentos para elas;
  • Não cortar flores silvestres e ervas daninhas porque estas são importantes para a dieta alimentar das abelhas;
  • Construir um “hotel para abelhas”, um tipo de estrutura feita de madeira para abrigar abelhas solitárias (abelhas que se perderam de sua colmeia);
  • Praticar apicultura urbana. Sim, torne-se você um apicultor. Não precisa produzir comercialmente, mas tenha um espaço para criar colônias e procure ONGs ou cooperativas para entender como criar abelhas;
  • Não tenha medo de abelhas. Abelhas só picam seres humanas quando se sentem ameaçadas. E elas morrem logo depois de terem picado alguém.

São todas medidas simples e que não vão ocupar muito do dia a dia de alguém. Não podemos nos esquecer de que também somos moradores do planeta Terra. Vivemos ao lado de todos estes animais e plantas e precisamos cuidar de nosso mundo.

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