Dentro do Bosque

  

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Caneta Tinteiro
9 meses atrás

Conto muito bom! Mostra como a noção de perspectiva pode ser fundamental numa narrativa e, ao mesmo tempo, mostramdo a corrupção humana.

Perfeito demais! 😍

Felipe
Felipe
9 meses atrás

Parabéns pelo projeto! É um ótimo jeito de divulgar autores para que o público possa conhecê-los um pouco antes de se comprometer com um romance completo.

Aiko
Aiko
9 meses atrás

Perfeito! Um ótimo jeito de conhecer a obra de um autor e ajudar a decidir em comprar ou não um livro físico dele. Não conhecia a obra de Akutagawa e fiquei fascinada por sua escrita graças ao conto publicado pelo Projeto Capsula.

Morro Branco
7 meses atrás
Reply to  Aiko

Oi, tudo bem? Ficamos felizes de verdade com o seu comentário e agradecemos o carinho! ♥

Mariana B.
8 meses atrás

Amei conhecer a escrita do Akutagawa por esse conto. Com uma narrativa simples e instigante, nos conduz por uma história onde cada narrador tem sua noção de moral e de honra, e nos desperta a dúvida: devemos confiar nos narradores em primeira pessoa? Devemos levar em consideração o gênero do personagem pra avaliar seu ponto de vista? Diante dessas reflexões super pertinentes, estou ansiosa pelos próximos contos do Projeto Cápsula!

Morro Branco
7 meses atrás
Reply to  Mariana B.

Oi Mariana, tudo bem? Que bom que você gostou, ficamos felizes com o seu comentário!

Paulo Vinicius F, dos Santos

A construção de personagens e suas personalidades é uma arte. Uma das mágicas por trás de um bom personagem é quando ele é relacionável, verossímil. Ou seja, é quando o personagem que entra naquela taverna pode ser o tio da padaria. Poucos autores dominam essa arte tão bem quanto Stephen King. Personagens como Carrie, Jack Torrance, Big Jim Rennie, Randall Flagg se tornaram icônicos. Mas, antes dele havia um homem chamado Ryunosuke Akutagawa. Um mestre na arte de contar histórias. Alguém que só poderia ter saído de um mundo de força, de honra e de beleza como o Japão. Akutagawa é mais conhecido pelo seu célebre Rashomon, uma história que retrata uma cultura em mutação diante da invasão ocidental.

Mas, vamos falar de Dentro do Bosque, um conto que demonstra o domínio que o autor tem de diferentes pontos de vista. A história é contada de forma epistolar e nos mostra vários relatos sobre o assassinato de um samurai e o desaparecimento de sua esposa. Cada testemunho vai nos apresentar uma versão diferente da história até sabermos do espírito do falecido o que realmente aconteceu. Este conto foi disponibilizado pela Editora Morro Branco em seu site através da plataforma do Projeto Cápsula que nos oferece a leitura de forma gratuita. Este conto brinca com a nossa capacidade de juntar as peças para montar uma história. Os relatos não são iguais e diferem em pontos cruciais do acontecimento: como o personagem estava vestido, quando foi achado, como morreu. Quando chegamos aos envolvidos diretamente no acontecimento é que conseguimos montar as peças e entender qual foi a real sequência de eventos.

Nenhum dos narradores é confiável, nem mesmo o falecido. Até porque ele está emocionalmente envolvido na história e seus sentimentos podem ter nublado a sua percepção dos acontecimentos. O curioso é que cada um dos personagens possui suas características psicológicas e emocionais que transparecem na forma como eles contam o relato. Temos desde o monge que conta a narrativa tropeçando nos acontecimentos, demonstrando incerteza até o transeunte que alega ter encontrado ele mesmo o corpo quando na verdade o policial é que havia encontrado. Ou até o próprio policial que ao mesmo tempo em que relata como encontrou o corpo já procura tirar suas conclusões sobre o caso. Mesmo com poucos parágrafos, Akutagawa nos permite conhecer parte de como funciona a mente de seus personagens secundários.

A sogra do protagonista também está ali por uma razão: ajudar a compor em nossa mente o álibi da mulher e seu marido. Me fez lembrar de séries procedurais como CSI ou NCIS em que todo o episódio gira em tentar nos apresentar uma lista de suspeitos e o diretor do episódio vai construindo um álibi para aos poucos ir desconstruindo à medida em que os acontecimentos se sucedem. O leitor vai investigando junto com o personagem. A narrativa de Akutagawa dá voltas e voltas, mas aos poucos a gente vai vendo os fatos se tornando mais claros. Quando o bandido faz sua confissão, na fala dele a gente já começa a perceber que algo não se encaixa. Até porque o bandido é bem orgulhoso e não se preocupa em contar detalhes do acontecimento. Claro que ele conta de uma forma exagerada, sendo um fanfarrão grosseiro. Então cabe ao leitor descobrir o que, na fala dele, é exagero e o que é fato.

Fica a minha recomendação aos autores deste excelente conto. Uma aula de construção e desenvolvimento de personagens que possui menos de vinte páginas. E o autor nem precisou criar todo um background, apenas fornecer algumas informações-chave que nos permitem compreender a narrativa. A gente não quer parar antes de terminar a história e descobrir o que aconteceu de verdade.