SOBRE ESCREVER OS QUADRINHOS – E OS PERSONAGENS QUEER – QUE PRECISAMOS

   Publicado em 19 de julho de 2019

Uma conversa com Neil Gaiman e N. K. Jemisin | Parte 2

NKJ: Eu estou aprendendo agora a escrever roteiros, inclusive por ler quadrinhos e observar o que está acontecendo na página. Depois tento transformar o que vejo pra forma de roteiro.

NG: Um roteiro não é nada além de uma carta para um artista, contando o que está na sua cabeça. O mantra para o qual eu voltava em cada roteiro, ao dizer a um artista o que fazer, era “se você vir um jeito melhor de fazer, faça”. Isso funciona.

NKJ: O importante é confiar no artista.

NG: É uma carta pessoal entre você e o artista, carregando a mesma relação que um diagrama arquitetônico tem com a casa pronta. E é também… tem uma mágica nela, no que ela te permite fazer, ou pelo menos me permitia aproveitar o que eu estava fazendo de um jeito que eu nunca imaginei com um livro que eu já li, reler por prazer e pensar “ah, olha só, um conto que escrevi”.

NKJ: Por estar próximo demais?

NG: Por estar próximo demais. Por ter escrito.

NKJ: Você precisa dessa distância visual?

NG: Por ter sido eu que fiz: cada escolha de palavra, cada vírgula estranha, cada lugar em que fiquei “ahhh” vai estar me esperando ali. Mas posso ler um quadrinho que escrevi com prazer. Porque da mesma maneira que eu suspeito que como um arquiteto eu poderia andar por uma casa que projetei e com prazer dizer “Oh, olha essa luz aqui, eles não fizeram um ótimo trabalho nela?”.

NKJ: Para mim são os audiobooks. Mas comigo, com audiobooks, escuto uma obra minha e fico “olha, isso é bom” e também “espera, esqueci que tinha escrito isso”.

NG: Você faz seu próprio audiobook?

NKJ: Não.

NG: Bom, eu faço os meus, o que significa que eu tenho aquele troço em que você escuta a sua própria voz e só me retorço com embaraço. Mas consigo escutar com prazer os poucos audiobooks que fizeram do meu trabalho com elenco completo.

NKJ: Eu ainda não tive isso, talvez um dia.

NG: É bem divertido.

NKJ: É quase uma novela de rádio, né?

NG: É meio que um híbrido porque eles dispensam os “ele disse”s e os “ela disse”s num geral, o que às vezes me irrita porque os coloco ali para dar ritmo à sentença e assim o ritmo vai embora. Mas eu aceito a alegria de ter Derek Jacobi narrando O livro do cemitério [Rocco, 2010] e pensar “isso é legal pra caramba”.

NKJ: Eu ainda não vi a adaptação para a TV desse livro e de Deuses americanos [Rocco, 2001] porque não tenho mais TV a cabo, mas eu vou encontrar um jeito de contornar isso.

NG: Eu amo o que fizeram com Deuses Americanos. Foi estranho porque é o tipo de coisa que te deixa “Okay, essa é a minha coisa. Façam um sucesso com ela”. E haviam coisas que estavam escritas em pedra.

Os filhos de Anansi [Conrad, 2006] tornou isso bem real para mim porque quando foi publicado eu recebi uma ligação de um diretor tão famoso que até eu sabia quem era – e eu sou péssimo com essas coisas. Ele disse “peguei o livro no aeroporto, li, amei e queremos comprá-lo. Queremos transformá-lo em filme”. E em algum momento da conversa eu estava com ele e o produtor no telefone e eles fizeram propostas ao meu agente. Estavam prestes a pagar uma quantia absurda de dinheiro. Então, disseram “eles vão ser brancos”. E eu disse “não, eles são negros”. E me responderam “Ah, mas gente negra não gosta de filmes de fantasia”. E eu falei “Então paramos por aqui e sinto muito. E não vamos nem discutir isso. Essa conversa acabou”.

Mas o que foi adorável de ter feito isso é que depois, com Deuses americanos, antes de contratarmos Brian Fuller como produtor ou qualquer coisa do gênero, quando Fremantle estava esperando para fazer sua opção de compra para a história, eu já falei “Nada das raças é negociável. Vamos ficar com todas as descrições raciais do livro, inclusive o fato de Shadow ser miscigenado. Não é negociável e podemos partir daí”.

NKJ: Acho que meu objetivo é ser importante o bastante para dizer isso. Eu vendi direitos para a TV recentemente e aceitei que como uma autora relativamente nova na cena e tipo, sem ter nenhum filme enorme relacionado a mim ou nada que prove que faço muito dinheiro, eu meio que aceitei o fato de que isso é algo que não tenho força para negociar. Eu tentei. E nos momentos que senti ter esse poder, eu negociei. Mas acho que para mim vai ser o ponto crucial ou quando eu o fizer e puder dizer “Não. Faça desse jeito ou vou embora” e eles façam daquele jeito em vez de me ver indo.

NG: Eu vou falar uma coisa disso, rapidinho: Eu acabei de passar os últimos seis meses produzindo… Sabe, passei vários anos adaptando e esses últimos seis meses produzindo Belas  maldições e a razão para isso é porque, em um panorama diário, não temos um controle real sobre as coisas a menos que nós mesmos as façamos.

Para mim, Belas maldições [Record, 2017] foi como ganhar algo do Terry Pratchett antes que ele morresse e “você precisa fazer isso, e de uma maneira que nos deixe orgulhosos”. E a essa altura eu não poderia arriscar a aposta de “escrevi o roteiro e acho que ele é bom o bastante e vou entrega-lo a um bando de desconhecidos. Sabe, estou entregando meu bebê, o meu filho, e tenho que confiar em vocês”. Então, não, vou ficar ali, atrás das câmeras. Vou estar lá no processo de seleção do elenco. Vou estar em cada etapa do caminho porque eu preciso estar.

NKJ: O que você sempre quis dizer em entrevistas e conversas guiadas e nunca pôde?

NG: A melhor parte do que nunca dizemos em entrevistas é que é normalmente o tipo de coisa que você ainda não compreendeu e que está tentando entender. E o motivo pelo qual você não a diz em entrevistas é não querer parecer estúpido. Então, para mim, estarei assistindo a natureza do que a internet é nesse exato momento. E assistir a mudança nos pulsos e nas desvantagens do que eu pensei que seria uma ferramenta que permitiria pessoas de todos os tipos se comunicarem de igual para igual, compartilhar pontos de vista e conduzir-nos a uma nova era de paz e harmonia.

NKJ: Eu já senti isso também.

NG: Exato. E assistimos a internet tornar-se um lugar em que as pessoas recuam para as suas cabanas e gritam com os outros. Há bilhões de pessoas nesse planeta e essa seria uma forma de conseguir conversar diretamente. E houve esse momento em que pensei “Ah, vão ser só memes de gatos fofinhos. Acho que consigo gostar disso”. E agora a internet parece ser uma coisa que permite…

NKJ: O pior.

NG: O pior. Na adolescência, pensei que eu era muito sortudo por todas as coisas ruins estarem no passado e por agora estarmos indo para um futuro meio Star Trek em que resolveríamos tudo por aqui e depois teríamos que sair em busca de um planeta onde todo mundo se vestisse como gangsters de 1930. Esse foi um tipo de “vamos resolver tudo por aqui”. E tive uma desilusão com isso, com o meu “que bom que os nazistas não tinham internet”. As coisas começaram a ficar bem mais reais. Você começa a lembrar quão difícil foi para a Grã-Bretanha convencer os EUA a tomar um partido… e se isso estivesse acontecendo agora, eles chamariam Pearl Harbor de “operação bandeira falsa”.

NKJ: Já estão chamando. Desculpe te contar.

Mas lembre que é uma construção. As mudanças que estamos vendo nas mídias são uma coisa que está sendo feita e que pode ser desfeita. Essa é a pequena grande esperança que tenho.

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